Capítulo III
O QUE É A VIDA?
Ótimo, você continua comigo!
Tenho motivos para estar surpreso e satisfeito, pois este tema é muito complexo e há grandes riscos de eu perder você ao longo da leitura.
Claro que se esse texto fosse interativo, como deveria ser, eu teria possibilidades maiores de reter você comigo, mas como não é, preciso fazer um esforço dobrado para imaginar o que você está pensando e corrigir minhas falhas de comunicação.
Mas, vamos adiante. Parece que estou conseguindo.
Já que aceitamos que a ciência tenha comprovado a existência do universo supraluminoso - sem limite de velocidade, instantâneo e infinito -, precisamos situar a vida dentro deste novo contexto.
O que é a vida?
Quando nos sentimos vivos?
Esta última pergunta tem a resposta.
A vida se sente, a vida é consciência.
Antigamente pensávamos que somente os seres biológicos tinham vida, mas hoje já se conseguiu fotografar reações químicas minerais que se assemelham em tudo a um processo de multiplicação celular. Sobre este aspecto, sugiro a você o livro Looking Glass Universe, de John Briggs e David Peat, que é muito provocante e esclarecedor.
Esta questão da matéria ter vida é muito importante e passou a ser popularizada no momento que os astronautas chegaram à lua e constataram que a Terra era um ser vivo.
Será que o fato de a matéria ter vida não lhe recorda nada?
Quase todos nós já observamos como se degrada rapidamente um prédio sem uso.
Você se lembra de algo assim?
Claro que se pode atribuir o desgaste acelerado ao fato de não ter a mesma circulação de ar, não receber manutenção, ou outras causas mais.
Mas também se pode pensar que o prédio abandonado tenha consciência da sua inutilidade e entre em processo de decadência. Algo muito semelhante ao que acontece conosco quando nos aposentamos.
Imagino que você possa pensar que comecei a "viajar" na ficção científica.
Pode ser, mas não é a intenção.
Estou procurando ser racional, objetivo e lógico.
Algo me diz que os objetos sem uso se estragam mais rapidamente.
Sinceramente, você também não tem essa impressão?
Pensando no assunto, é bem provável que você encontre exemplos.
Pode ser aquela roupa guardada, o aparelho abandonado, o móvel no depósito, a jóia esquecida e tantas outras coisas que ficam diferentes sem uso.
Na verdade, não podemos ficar surpresos com isso.
E, agora, que você até já está admitindo que isso possa acontecer, vou dar o fundamento científico para o fato.
A física quântica comprovou que matéria e energia são estados transitórios assumidos por uma partícula.
Quando se observa uma partícula, ela se assume como matéria ou energia. Veja bem que eu disse "observa", pois os físicos comprovaram que o observador não é isento do processo. Ao contrário, faz parte dele.
De uma forma ou de outra, a partícula toma consciência de estar sendo observada e se assume como matéria ou energia.
Pense junto comigo.
Se uma simples partícula se comporta dessa forma, por que razão um conjunto de partículas não pode sofrer a mesma influência?
Parece evidente que os objetos também tomam consciência de estarem sendo, ou não, observados. Logo, é muito natural que objetos sem uso se comportem de forma diferente de outros que estão sendo utilizados.
Será que nossa racionalidade está satisfeita?
A minha está. Espero que a sua também.
Mas também, se não estiver, isso é somente uma questão de pensar no assunto e aprofundar o tema.
Aceitando-se que a matéria possa ter vida, tudo fica mais fácil, pois é evidente que todo o resto também tem.
Na verdade, a mais moderna concepção que se tem da vida é de ser ela uma "consciência".
Quando digo que a vida é uma "consciência", a palavra consciência traz consigo a idéia de relação. Eu não posso tomar consciência do que não existe. Logo, só posso tomar consciência de algo. Dito de outra forma, a vida existe porque existe algo além dela e que lhe permite ter consciência de alguma coisa.
Dizer que a vida é "consciência" significa aceitar que “nada é, tudo está".
Você não entendeu como eu cheguei a essa conclusão?
O fato é que eu não posso "ser" consciente de algo; eu "estou" consciente.
Quando se diz que tudo "está", isso significa assumir que a existência não tem valor absoluto; ela é resultado do fato de ser percebida como tal.
Claro que para "estar" é preciso "ser", mas para "ser" é preciso "estar".
Confuso, não é?
Aparentemente sim, mas existe uma lógica para o que está dito.
Vamos ter de voltar um pouco na história recente da nossa maneira de pensar para entender melhor isso.
Até há pouco tempo se pensava que a gente produzia alguma coisa e outros consumiam. Por exemplo, em administração é famosa a observação do Ford, quando disse que ele faria carros de qualquer cor, desde que fossem pretos. Ou seja, ele não estava dando a mínima para o consumidor. Ele produzia o carro, como ele queria, e o consumidor que comprasse.
Essa posição durou bastante tempo, até que surgiu a teoria dos sistemas, baseada na biologia, e se passou a admitir que o consumidor influísse sobre a produção, pois se procurava identificar o que ele achava do produto para poder ajustá-lo ao seu gosto. O consumidor retroalimentava a produção.
Hoje a teoria sistêmica já está superada, pois se reconhece que "o produto é produtor daquilo que o produz".
Não existe mais um tempo para se identificar o que o consumidor pensa do produto; o próprio produto é parte da sua produção. O produto, de certa forma, se autoproduz.
Complicado isso?
Nem um pouco.
Quem nasceu antes, o ovo ou a galinha?
Desde quando eu era criança, perguntam isso para a gente.
Hoje já se admite como natural que o ovo produza a galinha, assim como ela produz o ovo. Antes isso criava um impasse na nossa lógica materialista.
Claro que todas essas idéias estão integradas. Antes se pensava que a qualidade era decorrente das especificações de um produto. Agora se sabe que é o consumidor que atribui qualidade ao produto.
No momento em que passamos a relativizar a matéria, aceitando que seja uma energia "constituída” pelos nossos sentidos, deixa de ser relevante a questão da anterioridade entre o ovo e a galinha e tantas outras que geravam o impasse da constituição do universo.
Recordemos, também, que o tempo não existe; logo, não pode existir anterioridade.
Não podemos perder isso de mente, para irmos assimilando, gradativamente, esta nova concepção.
Tudo isso representa um avanço significativo na nossa maneira de pensar. E ocorre simultaneamente em todos os campos da atividade humana.
Mas voltemos, agora, àquela questão do "ser" e "estar".
Um produto industrial, por exemplo, não "é" alguma coisa; o produto se constitui em algo a partir do valor que a ele atribui o consumidor.
Algum tempo atrás me convidaram para escrever um artigo sobre qualidade, e o título que dei foi bastante provocativo: "Não existe produto com qualidade". Considerando-se que era para ser publicado numa revista especializada no assunto, achei que seria bastante provocante esse título.
A justificativa para o mesmo, você certamente já entendeu. Antes de mais nada, "produto" é um serviço com massa, ou seja, o que interessa é o serviço prestado pelo produto e não ele de forma absoluta. Quanto à referência à qualidade, ela se justifica, pois no título ela aparece como sendo um atributo do produto, quando a qualidade é algo atribuído pelo cliente.
Fique tranqüilo. O artigo foi publicado. Creio que a revista não existe mais, mas acho que não tive responsabilidade.
Nestes termos o produto não "tem" qualidade, mas "está” com qualidade, algo que poderá ser permanente ou perder bastando para tal que se torne obsoleto ou se deteriore.
É possível que um especialista em marketing jamais tenha pensado que este conhecimento da sua ciência decorre de um princípio da física tão singelo quanto o de "ser" e "estar".
Na verdade tem nos faltado um conhecimento integrado para podermos aproveitar melhor os avanços das ciências, especialmente da física e da biologia.
Neste texto estou procurando resgatar esse avanço aplicando-o à questão existencial do ser humano. Já fiz isso na área da administração e estou tentando fazê-lo nesta outra área.
Mas voltemos à questão da vida.
Considerar a vida como consciência significa assumir que ela exista a partir da sua inserção em algo.
Nada existe de forma absoluta; tudo existe a partir de fato de termos consciência da existência. Quando não podemos ter essa consciência, deixa de existir para nós
Você concorda com isso?
Parece um pouco confuso, não é?
Vou tentar por outra linha de argumentação.
Dizer que a vida é "consciência" significa que de alguma forma eu estou ciente de algo.
Como eu estou ciente de algo, é este algo que me dá vida. Eu sou "constituído" por ele. Eu não posso estar ciente de nada.
Fica no ar uma pergunta:
A vida acaba?
Só se não existir nada para se estar ciente. Neste caso não pode haver consciência, e não haveria vida.
Essa é uma hipótese absurda, pois não podemos imaginar que o nada exista, pois o simples fato de existir já terá deixado de ser nada.
Certo?
Logo, consciência sempre existirá. Resta saber se esta é uma consciência global, ou se pode ser individualizada.
Bem, agora, sim, entramos num terreno bastante desafiante.
Até o materialista mais assumido não irá negar que sejamos individualizados, mesmo porque a certeza dele sobre algo é uma coisa particular dele; logo, individualizada.
Pois bem, se somos individualizados, isso significa que somos uma parte de um todo, pois se assim não fosse, não seríamos individualizados, mas sim o próprio todo.
Já que existe o todo e somos parte dele, está hoje sobejamente provado pela ciência que "o todo contém a parte, assim como ela contém o todo".
Antigamente se aceitava que uma parte pertencia ao todo, mas não se falava na hipótese de essa parte ter em si o todo.
Recentemente surgiu uma grande polêmica quanto à ética de criarmos clones humanos a partir da multiplicação de uma célula, sem fecundação.
Isso é muito praticado na botânica para criar florestas clônicas. O processo é muito simples. Basta escolher uma árvore que entendamos seja um espécime bom e que deva ser reproduzido. Tomando-se uma célula dessa árvore, podemos gerar milhares de árvores idênticas; não terá havido fecundação, mas sim multiplicação celular.
Parece evidente que, se podemos fazer isso com uma árvore, também se pode fazê-lo com pessoas, pois as diferenças não são tão significativas, já que ambos são seres vivos.
Mas o que tem a ver isso com a afirmação de que o todo contém a parte, assim como ela contém o todo?
Parece evidente, não é?
Pois se a partir de uma célula podemos gerar uma árvore, é porque esta célula tinha dentro de si a árvore toda.
Quanto a isso, não podemos ter dúvidas.
Pois bem, se nós somos uma parte e pertencemos a um todo, parece evidente que temos o todo dentro de nós.
Quem é esse todo que temos dentro de nós?
Para facilitar as coisas, chamemos esse todo de Deus.
Podíamos dar qualquer nome, mas este já está consagrado. Claro que a imagem está um pouco desgastada com a mania que alguns têm de representar este Deus como sendo uma figura geralmente masculina. Algo justificável quando nós homens predominávamos na Terra, mas que passará a ser feminina caso as coisas prossigam como estão indo e se queira ajustar a imagem à realidade.
Bem, vamos abandonar a brincadeira e falar novamente sério sobre este Deus.
Quem é Ele?
Como Ele é?
Que forma tem?
Qual seu aspecto?
Por definição não podemos responder essas perguntas, pois se Deus é o todo, veja bem, "o todo", Ele é infinito e não tem forma nenhuma, pois o infinito, por definição, não pode ter limites, e as formas são limites.
Por outro lado. Deus não pode ser bom nem mau, pois estes são conceitos tipicamente humanos e sobre eles vamos conversar mais adiante.
Isso não depende de fé; isso é ciência pura.
A individualização se estabelece a partir das referências que a parte mantém com o todo. Ou seja, nós nos “constituímos” pelas referências que estabelecemos; logo, nós não somos nada como valor absoluto, mas sim uma referência estabelecida ante um todo maior.
Ao reler isso, imaginei que você não esteja agüentando mais a repetição dessa idéia.
Se ela o irrita, ótimo. É sinal de que já assimilou a idéia. Mas sempre pode ser que alguém não tenha assimilado. Por isso, volta e meia estou repetindo. Tenha paciência.
O tema deste livro é bastante complexo e, como já disse, não tenho como saber o que você está pensando.
Vamos adiante.
Como nós somos "constituídos", enquanto individualidade, não por algo nosso, mas sim pelo todo, não há possibilidade de deixarmos de existir, pois é o todo que nos dá existência e, logicamente, o todo não pode deixar de existir, pois se assim fosse, não seria o todo.
Por mais céticos que sejamos, por mais racionais que queiramos ser, o que já sabemos do universo nos assegura que somos algo mais do que um sistema biológico acionado por reações físico-químicas e que se extingue quando perde seu substrato material.
Tudo leva a crer que sejamos uma "consciência", pois se aceitarmos esta hipótese teremos solucionado as questões básicas sobre o que é o ser humano. Se somos "consciência", o corpo humano passa a ser um substrato material através do qual entramos em contato com uma realidade estabelecida pêlos próprios sentidos deste corpo, e interpretada por nós mesmos como "consciência".
Aceitando-se que somos "consciência", assumimos a dimensão da universalidade, e nossa vida na Terra passa a ser uma conscientização que vivenciamos por opção do todo individualizado que somos nós.
Esta vivência terrena deve representar um átimo da consciência, algo insignificante ante a nossa individualidade energética. Como se sabe hoje que o tempo não existe, sendo uma percepção inerente ao ser humano, a duração desta passagem na Terra é impossível de ser medida, e não deve representar absolutamente nada perante a magnitude da nossa consciência.
Para utilizar uma figura tipicamente humana, podemos dizer que nossa vivência na
Terra significa um papel que assumimos para vivenciar a realidade estabelecida pelos sentidos. Algo parecido com um papel desempenhado por um ator que segue um script.
Certamente nós, como “consciência”, é que decidimos sobre o papel que iríamos representar, e o fizemos por motivos que fogem à nossa percepção, pois esta é muito limitada e não nos permite inferir sobre um todo maior ao qual certamente pertencemos e que está dentro de nós.
Esse script, por sua vez, não foi escrito por ninguém ele é estabelecido por uma cadeia de eventos probabilísticos, dos quais participamos minimamente, pois somos uma insignificante parte dentro de um todo integrado e autogerenciado.
Não é por outra razão que pessoas dotadas de poderes especiais podem prever o que vai acontecer, pois o que deve ser, será.
Lembre de novo que o tempo não existe, logo as palavras que utilizamos para passar uma idéia pecam por um vício fundamental que é o de serem vinculadas ao fator tempo. Há pouco, utilizei a palavra "átimo" para dizer que algo era pequeno ou instantâneo, dentro do conceito espaço/tempo. Mas "átimo" não significa instantâneo; significa um lapso de tempo ínfimo. Mas sempre um lapso de tempo. E mesmo instantâneo, tem para nós uma conotação com tempo.
Mas o fato de aceitarmos que o que tem de ser será, ou seja, uma espécie de fatalismo, peca em razão de o tempo não existir, mas não nos exclui da participação no que teoricamente vai acontecer. Como fica difícil, ou impossível, imaginarmos uma ação sem tempo, vamos dizer que nossa participação seja contingenciada pelo todo dentro do qual estamos inseridos.
Nós somos "consciência" e, de certa forma, atores, que seguem um script, o que não impede que possamos desempenhar esse papel de forma personalizada.
Certamente, o que nos angustia ante a morte é a possibilidade de perdermos essa individualidade.
Não há dúvidas quanto ao fato de nós nos constituirmos a partir das referências que estabelecemos com o meio em que estamos inseridos. Antigamente era comum que tivéssemos uma só individualidade. Hoje já é diferente.
Cada dia se torna mais usual que tenhamos, no decorrer da nossa vida, muitas vidas.
Quando, por exemplo, rompemos um casamento e partimos para uma nova relação, praticamente estamos estabelecendo uma nova individualidade.
Quando trocamos de emprego e mesmo de profissão, estamos ante uma nova individualidade.
Quando nos mudamos de cidade, ou de país, estamos recomeçando uma nova vida.
Os exemplos se sucedem. A exceção hoje é uma pessoa ter uma vida linear, nascendo numa cidade, se educando lá mesmo, conseguindo um emprego até se aposentar, casando com alguém de lá, criando seus filhos no mesmo local, envelhecendo, morrendo e sendo enterrado onde nasceu.
Quase todos nós temos múltiplas vidas.
Eu, particularmente, nasci numa cidade, fui criado noutra e já morei em mais de uma dezena de locais. Estou no terceiro casamento. Minha primeira profissão foi de dentista, passei para a área de saúde pública, entrei no campo da economia e segui pela administração. Tive empresa de diversos setores, seja indústria, comércio e serviços, e hoje sou consultor, professor e estudante de Direito. Participei ativamente da política, fui candidato a constituinte. Escrevi livros sobre ideologia política, um romance, um sobre economia, diversos livros sobre administração, dois livros infantis, um sobre preservação da saúde e esse sobre aspectos existenciais.
São, ou não são, muitas vidas numa só?
Serei exceção?
Certamente que não. Esta é a regra geral.
Partindo-se da concepção de que nos constituímos perante os outros, e isso é geralmente aceito como certo, estamos tendo mais de uma encarnação ao longo de uma vida.
Podemos pensar assim?
Sei que estou forçando um pouco as coisas, mas isso ajuda para que se possa romper com certos bloqueios mentais.
Na situação que referi, uma pessoa transita pela vida, trocando de afetos, de ambientes, de atividades, interesses e referências.
Como seria se uma pessoa perdesse todas suas referências?
Ela simplesmente deixaria de existir. Teoricamente essa pessoa estaria viva, mas na realidade estaria morta.
Logo, a vida, como a entendemos usualmente, não está no fato de o corpo não ter morrido, mas sim nas relações que estabelecemos com o meio em que estamos inseridos.
Mas, ainda que assim seja, e estejamos conscientes de que uma vida eterna neste mundo seria algo insuportável, a morte nos angustia. Creio que não tanto pelo temor ao desconhecido, pois até poderia ser uma aventura desafiante, mas sim pela possibilidade de deixarmos de existir, por perdermos nossa individualidade.
Como dizem alguns autores: seríamos a gota que volta ao oceano.
Isso não nos satisfaz. Assim sendo, quando sentimos angústia ante a morte, é por desejarmos preservar essa tal de individualidade.
Com a morte perdemos as relações estabelecidas a partir do nosso corpo, mas preservamos todas as demais que independem dele. Não há por que ser diferente.
Não haveria lógica se o corpo, transformando-se em energia, suprimisse também o restante da energia, que esta sim, somos nós, enquanto individualidade.
Como o fundamental são as relações, pois são estas que nos constituem e dão individualidade, a vida prescinde da existência do corpo.
Temos inúmeros exemplos que demonstram que somos muito mais do que o corpo que temos. Pensar que o corpo é o que somos nós é o mesmo que imaginar que o som que sai do instrumento é o próprio instrumento, ou que este possa gerar o som sem que haja algo mais do que ele próprio.
Na verdade, o instrumento poderá desaparecer, mas o som poderá se reproduzir por outros instrumentos similares. Nós somos o som e não o instrumento. Nossa configuração vibratória é que nos personaliza. Nós somos, música, que é individualizada e não um simples recurso para gerar vibrações.
Assim como a música é eterna, bastando que se produzam as vibrações que a geram, também nós somos vibrações eternas e personalizadas.
Quando sentimos saudades de uma pessoa viva, ou que acreditamos que esteja viva, estamos saudosos de alguém cuja existência não contestamos. Quando, entretanto, essa pessoa morreu, ou seja, perdeu seu substrato físico, este tipo de relação é diferente.
Por que é diferente?
Será porque entendemos que há possibilidade de encontrar a pessoa viva e a morta não?
Hoje, como vimos antes, já possuímos recursos técnicos para reviver um ator de cinema e fazer um novo filme redesenhando seu papel por computador. Ou seja, essa pessoa pode reviver em termos de produção de um filme.
Antigamente isso seria considerado bruxaria e não seria aceitável. Hoje já não nos surpreende.
Assim como podemos restabelecer o aspecto físico e as emoções de uma pessoa morta, por que não podemos reencontrar essa pessoa num outro plano sensorial, ou até mesmo no nosso atual plano sensorial?
A invocação de uma pessoa viva ou morta é um estado vibratório em que entramos em sintonia com ela.
Vale recordar, também, que inexiste passado, presente e futuro, pois o tempo é algo inerente à nossa condição humana e não algo que faça sentido em termos de universo virtual. Vale repetir, não há tempo no universo virtual, energético e vibratório.
Nosso problema com relação à morte é que não conseguimos nos imaginar como algo destituído de matéria, e a matéria efetivamente se degrada e transforma, mas nós, enquanto energia, vibração, somos tão eternos quanto a música.
Na verdade, como já disse, o que nos preocupa nesta questão de vida e morte é sabermos se com a desencarnação perdemos a nossa individualidade.
Podemos ser algo similar à música, mas, usualmente, preferimos nos identificar como substrato físico. Caso fôssemos matéria, esta certamente se degradaria e se transformaria em outros componentes químicos, e nós simplesmente desapareceríamos.
Mas hoje já dispomos de informações suficientes para podermos ter a certeza da existência de algo após a morte, e sobre a existência de algo muito abrangente, infinito, que podemos chamar de Deus.
O que tem dificultado a aceitação plena da certeza de que não acabamos com a morte é o costume de se pretender levar para a dimensão espiritual práticas, costumes, crenças, valores e maneira de ser existentes na Terra.
É comum, por exemplo, que certas religiões falem em espíritos superiores e espíritos inferiores. Isso é, tipicamente, uma maneira de ver terrena, e assim mesmo, já superada, pois as modernas concepções de organizações humanas já não aceitam esse tipo de hierarquia. O que não dizer, então, de se levar esses conceitos para a vida espiritual.
Qualquer que seja o jeito de querermos representar Deus, imediatamente surgirá a necessidade de colocá-lo dentro de um contexto, e terá deixado de ser o todo para ser uma parte, e deixará de ser Deus.
Seria muita pretensão nossa querer "entender" Deus.
Vamos fazer como os cientistas modernos fazem; vamos acreditar que o todo tenha de existir para que possamos aceitar que somos uma parte.
Pois bem, se somos uma parte e o todo existe, é sabido que esta parte contém o todo.
Ou seja, em outras palavras, Deus está em todos nós e nós somos uma parte de Deus.
Na verdade, a maioria das religiões afirma isso. Elas se perdem é quando tentam estabelecer modelos humanos para algo que é espiritual. Mas isso não é muito relevante.
O importante é reconhecermos que o todo está em nós.
Sendo isso verdade, o que é a vida e o que é a morte?
A vida, e por conseqüência a morte, nada mais é do que uma realidade gerada por nossa percepção do universo. Em outras palavras, a vida, como a entendemos, não existe. Logo, a morte tampouco.
O que existe é uma consciência individualizada e, esta sim, somos nós.