Capítulo IV
NOSSO CORPO É UM INSTRUMENTO
Vamos imaginar que o corpo humano seja um instrumento através do qual entramos em contato com a realidade reconhecida pelas três dimensões que ele nos permite identificar.
Mas que tipo de instrumento seria esse?
Digamos que, por exemplo, seja algo parecido com um violino. Um violino que o músico utiliza para emitir vibrações sonoras que impressionam os nossos sentidos.
Claro que o violinista é muito mais do que o violino, ainda que seja este que emita a música que escutamos.
Pode-se confundir o violinista com o violino?
Certamente que não. Ainda que quanto maior for a integração entre os dois, mais qualidade terá a música.
Mas o violinista é uma pessoa e o violino um instrumento utilizado por ele. É certo, também, que o violinista utiliza transitoriamente o instrumento.
No caso do corpo humano, também nossa "consciência" utiliza-o como instrumento para inserir-se no universo que conhecemos.
A "consciência" não é o corpo, assim como o violino não é o violinista.
É comum encontrarmos, na entrada de metrôs, músicos que tocam simultaneamente diversos instrumentos. Algo parecido ocorreria com nossa "consciência", que pode, simultaneamente, estar sendo aplicada em mais de uma atividade ou vivendo mais de uma experiência sensorial.
O fato de estarmos utilizando um corpo humano é um episódio, nada mais do que um episódio, possivelmente simultâneo com outros episódios.
Assim sendo, posso acreditar que minha dimensão real seja infinita e possa estar simultaneamente "vivenciando" diversas situações, dentre elas a de ser humano.
Ficou claro isso?
Você não tem nada para reclamar?
Claro que tem. Acabo de escrever como se o tempo existisse. Isso vai acontecer algumas vezes, como recurso de comunicação, visando a facilitar a abordagem do tema.
Sei que não é fácil a gente abandonar o conceito de tempo e matéria e pensar em termos de infinito, concepção, vibração e consciência.
O fato de buscarmos essa dimensão infinitamente mais ampla facilita muito o entendimento do que somos nós.
A questão, por exemplo, do espírito superior que nos acompanha quando desencarnamos, que é referida em inúmeros relatos sobre o assunto; ou o "anjo da guarda" que nos protege enquanto encarnados; passa a ser entendida como uma parte da nossa "consciência". Não tem sentido imaginar que fosse um outro espírito que nos acompanhasse sempre. Claro que nos acompanha sempre, pois somos nós mesmos.
Caso você seja alguém que, como eu, foi educado no espiritismo e convive com essas concepções religiosas, não fique frustrado. É muito mais lógico que sejamos nós mesmos, enquanto consciência individualizada, quem nos apóia e nos acolhe do que imaginar que seja alguém mais, "escalado" para nos acompanhar.
Como nós somos um ser ilimitado, pois temos Deus em nós - já que o todo está dentro da parte, assim como ela está no todo -, e individualizado, por sermos uma parte, fica fácil perceber que não há necessidade de ser acionado um outro ser para nos acompanhar, quando nós mesmos continuamos existindo no universo supraluminoso.
Dizer que continuamos existindo é assumir a maneira de pensar humana, pois em realidade não se pode "continuar", pois, como já vimos, o tempo não existe e nossa "passagem" na Terra é instantânea.
Por outro lado, para entender nossa individualidade, precisamos nos socorrer do holograma, algo que só recentemente foi assimilado por nós, e nos ajuda muito para nos situarmos dentro do contexto deste universo convencional e limitado. O livro O
Paradigma Holográfico, editado pela Cultrix, é uma coletânea de textos muito interessantes sobre esse assunto.
No holograma cada pedaço tem o todo em si, de tal forma que, se ampliado, ele restabelece o todo. Assim sendo, num holograma, quando se amplia um pedaço da cauda da figura de um cavalo, o que se obtém não é este pedaço em tamanho maior, mas sim o cavalo por inteiro.
O pedaço existe, ou seja, ele pode ser individualizado enquanto pedaço, mas quando ampliado, ele se assume como sendo a figura da qual ele era parte.
Assim somos nós perante Deus. Um simples e singelo pedaço de holograma.
Pois bem, uma parte desse pedaço de holograma é que assume o nosso corpo como instrumento, através do qual entra em contato com um universo, que, por sua vez, existe por ser assim reconhecido por este mesmo corpo.
Para mim está muito claro.
E para você?
Nem tanto?
Entendo.
Tenho meditado continuamente sobre tudo isso e lido muito, de tal forma que para mim as coisas ficam bem mais claras.
Estou tentando facilitar para você essa percepção.
Claro que não é fácil. Mas vamos continuar tentando.
Se algo não ficou muito claro, releia. Pare um pouco de ler. Medite. Leia alguns dos livros do Capra. Depois volte.
O fascinante é como gradativamente estamos ampliando nosso campo de entendimento do universo e assumindo percepções que nos ajudam a entendê-lo e o que somos.
Certamente nós, ocidentais, por nossa maneira de ser baseada no racionalismo e na necessidade de termos provas de tudo, enfrentamos dificuldades que os orientais, muito mais espiritualizados, não sentem.
Nos últimos anos, a partir do momento em que a física quântica identificou seus fundamentos nos mesmos princípios adotados pelas religiões orientais, tivemos um avanço significativo, pois os próprios cientistas, ou seja, os homens tidos como céticos, que querem prova de tudo, entenderam que os limites da nossa percepção são gerados pela limitação da nossa capacidade de compreender.
O que antes era considerado místico, e que só era aceito por quem tinha fé, passou a ser uma espécie de campo do conhecimento que ainda não conseguimos atingir plenamente.
É comum, e já fiz referência a isso, que os cientistas reconheçam como tendo existência real coisas que probabilisticamente devam existir para que se possa entender melhor o que realmente conseguimos reconhecer como sendo real. Pois é dentro dessa maneira de pensar que precisamos entender o que somos.
Resumindo, pode-se dizer que cada um de nós é uma “consciência”, ou conjunto individualizado de vibrações, tendo uma parcela dessa “consciência” assumido como instrumento o corpo humano.
Nossa vida na Terra seria algo como uma escolha que fazemos de tocar um determinado instrumento.
A encarnação num corpo nada mais seria do que uma opção de parte do nosso conjunto vibratório de utilizar este corpo para entrar em contato com a realidade percebida por este mesmo corpo.
Por que faríamos essa opção é algo que só posso comparar à nossa decisão de ir ao cinema e não a um espetáculo esportivo; de ir a um velório e não a uma festa; ou coisas similares.
Como seres humanos, a cada instante, estamos optando por uma atividade que pode ser comparada, em termos de infinito, com a duração de uma vida. Tudo depende de escala de medida.
Você não aceita?
Até tem razão se sua objeção reside no fato de estar falando em tempo de vida, quando já concluímos que ela é instantânea.
Ocorre que para nos comunicarmos precisamos utilizar as limitações do nosso sistema sensorial e ficarmos dentro dos limites do nosso processador de informações que é nosso cérebro. Assim sendo, é preciso trabalhar com o conceito de tempo como se ele existisse, pois para nós realmente ele existe.
É que para escrever sobre este tema preciso utilizar palavras que trazem consigo a percepção limitada que temos da realidade. O tempo de uma vida, feitas as ressalvas da terminologia utilizada, é similar ao tempo que tomamos durante uma vida para fazer determinadas coisas e deixar de fazer outras.
O certo é que, por um motivo ou outro, nossa "consciência" sintonizou-se com a realidade gerada por nossos sentidos, e o fez através de um corpo humano.
Cabe aqui uma observação relacionada com o fato de alguns corpos humanos apresentarem deficiências estruturais e vivenciais.
Um aspecto instigante reside no fato de alguém ter decidido encarnar num corpo deficiente, ou enfrentar uma situação difícil de vida, quando poderia fazer uma opção mais prazerosa. Mas constantemente fazemos opções similares e nem por isso consideramos que seja um absurdo.
O explorador que se embrenha numa floresta, correndo riscos, enfrentando sofrimentos e angústias existenciais, o faz por opção.
Muitos de nós, também, fazemos opções afetivas de alto risco, como, por exemplo, casar com uma pessoa muito problemática, e aceitamos isso como natural.
Outros encaminham seus negócios para riscos altíssimos, e pagam as conseqüências da opção que fizeram.
Certas pessoas vivem perigosamente e achamos isso perfeitamente natural, pois, afinal de contas, estão decidindo sobre suas próprias vidas.
Se os seres humanos assim agem, por que achar absurdo que uma parte da nossa "consciência" tenha optado por encarnar num corpo que previsivelmente irá enfrentar dificuldades para viver?
Esta, certamente, foi uma opção que tomamos ao aplicar parte da nossa identidade vibratória numa empreitada que, diga-se de passagem, representa um átimo que nem podemos medir dentro do contexto da eternidade, mesmo porque na esfera vibratória o tempo não existe.
Encarnar, por exemplo, num corpo mutilado, pode representar para esse conjunto vibratório o mesmo encanto e desafio que assumimos quando abrimos mão do conforto e da segurança para viver uma aventura exótica.
No caso das características do corpo que encarnamos, temos o absurdo costume de avaliar o conjunto vibratório que nos individualiza, como sendo o corpo encarnado.
Isso é o mesmo que avaliar a beleza e possibilidades de uma música pelas deficiências do instrumento no qual ela é tocada.
Mas mais absurdo ainda é pensarmos que uma pessoa deficiente esteja "pagando" por pecados cometidos em outras vidas, ou tenha tido azar.
A qualidade, se é que se pode dizer assim, da "consciência" da pessoa portadora de deficiências nada tem a ver com as características físicas. Todos nós somos iguais como "consciência", ainda que individualizados pelas experiências vivenciadas.
Nossa individualidade resulta das especificações das nossas vibrações, sem que isso gere qualquer sentido de superioridade ou inferioridade. Assim sendo, não se pode dizer que o "dó" seja superior ao "sol", ou ao "fá". Eles simplesmente representam vibrações distintas e individualizadas quando percebidas por nosso sistema sensorial.
Fosse outro nosso sistema sensorial, e essa individualidade seria percebida de outra forma, como ocorre com um deficiente auditivo que sente as vibrações da música.
Por outro lado, pensar que uma pessoa deficiente esteja pagando por erros cometidos é assumir que quem erra, ou comete um mal, possa ser uma pessoa má. Isso simplesmente não existe, pois nossa consciência encarnada não tem esse tipo de característica, tipicamente humana. Somos vibrações e ponto final. Não somos bons nem maus. Não existe ninguém melhor ou pior. Muito menos existe alguém evoluído e outros menos evoluídos.
Se não existe bem ou mal - e num próximo capitulo vamos analisar isso -, não se pode pagar por algo que não existe.
Viver num corpo deficiente ou deformado, ou enfrentar situações críticas de sobrevivência econômica e social, representam desafios que livremente assumimos, e nunca uma condenação que tenha sido imposta a nós.
Mesmo porque, quem imporia essa condenação?
Com que autoridade e em nome do que, ou de quem?
Estas são perguntas que buscam respostas para questões tipicamente humanas, feitas por quem não consegue assumir sua verdadeira dimensão como conjunto vibratório individualizado.
Precisamos reconhecer a dimensão da nossa vida na Terra em sua verdadeira grandeza, ou seja, sua total insignificância e sua desimportância perante nossa real dimensão.
Nossa existência e individualidade como seres humanos é um caso particular, um episódio, certamente simultâneo e insignificante, ante nossa dimensão incomensurável e eterna.
Ao longo deste texto você deve ter percebido que muitas vezes fiz observações retirando qualquer responsabilidade que poderia pesar sobre uma pessoa.
Assim sendo, escrevi que nós somos "constituídos" pelos outros, já que não "somos" nada; sempre "estamos" alguma coisa. Mais adiante, disse que todos somos iguais como consciência, recusando a idéia de que alguém possa ser melhor do que outro.
Apresentei o chamado futuro, que na realidade não existe, como sendo algo que se desenvolve dentro de uma relação probabilística, ante a qual temos insignificante influência. Sei que esse fatalismo pode parecer uma fuga à nossa responsabilidade pelo que construímos e somos.
Pois bem, estou consciente de tudo isso, mas agora vou atribuir a cada um de nós muita responsabilidade pelo corpo que utilizamos como instrumento. Claro que este corpo pode ser influenciado pelo meio externo a ele, como ocorre no caso de um acidente que gere mutilações ou no caso de uma agressão que o atinja.
Descartadas essas e outras possibilidades que fogem, aparentemente, ao nosso controle, pois muitas delas foram favorecidas por nós, resta a responsabilidade que temos pela conservação e manutenção do corpo.
Certamente, nos últimos anos, este aspecto tem sido muito melhor atendido do que era antes. A cada dia cresce o número de pessoas que se preocupa com seu corpo e trata dele com o respeito e a atenção que merece.
Mas, infelizmente muitas pessoas maltratam seu próprio corpo e não dão a ele a atenção a que tem direto como instrumento que nossa "consciência" está utilizando.
Abordo esse tema com bastante facilidade, pois minha formação intelectual começou pela área da biologia; fui professor de patologia e tenho especialização em saúde pública. Logo, não sou nenhum empírico que escreva sobre o que não entende ou não tenha estudado, de tal forma que na primeira edição desse livro abordei esse tema, mas já não o farei nessa, pois entre uma e outra, dediquei a ele muita atenção através do site com dezenas de milhares de acessos www.curapelamente.net e publiquei um livro sobre o assunto: “Manual de Promoção da Saúde”.