Capítulo V
NÃO ACEITE LIMITES
No universo gerado pela nossa percepção, ou universo real, não há limites, pois desde o infinitamente pequeno, até o infinitamente grande, não existe linha de separação ou ruptura.
Você concorda com isso?
Geralmente as pessoas discordam dessa afirmativa.
Vamos raciocinar juntos.
Imagine que exista uma linha separando o que seja de um tamanho do que seja de outro.
Qual a espessura que você imagina que deva ter essa linha?
A espessura, na verdade, não vai interessar muito, mas estamos de acordo que deve ter uma espessura.
Certo?
Tomemos essa linha com sua espessura, e façamos uma ampliação dela. Podemos ter, agora, uma superfície bastante significativa, dependendo obviamente do nível de ampliação.
Mas seja qual for a ampliação, precisamos novamente traçar uma linha divisória, pois por definição é uma linha que determina um limite, e não uma superfície.
Você já entendeu o que vai acontecer, não é?
Claro, vamos ampliar novamente essa linha e precisaremos traçar uma nova linha, e assim sucessivamente.
Logo, podemos concluir que limite não existe. Limite seria um ponto de ruptura num universo contínuo, o que é inaceitável, pois deixaria de ser contínuo.
Aceitando-se que o universo não tem limites, o limite, seja ele qual for, passa a ser algo não natural. Ocorre que tudo que é artificial tem um preço a ser pago por contrariar a natureza.
Não está clara essa afirmação?
Para mim ela parece muito clara, pois venho trabalhando em administração com ela nos últimos anos. Mas é possível que você tenha dificuldade para entender o que quero dizer.
As intervenções dos seres humanos na natureza geram geralmente rupturas, criando limites artificiais, sejam eles de vida, ou mesmo físicos, como é o caso das barragens.
Quando eu disse antes que "tudo que é artificial tem um preço a ser pago", o que quis dizer é que não se pode interferir na natureza impunemente.
Entenda natureza de forma abrangente, pois também não se pode violentar a maneira de ser das pessoas sem que isso gere conseqüências.
Possivelmente seja mais fácil de entender essa questão de limite quando nos rebelamos, por exemplo, com a penalidade que nos é imposta por termos ultrapassado o limite de velocidade dirigindo um carro, ou termos permanecido além do tempo pago num estacionamento, ou não termos atingido o limite de aprovação numa prova.
Nossa inconformidade é tanto maior quanto mais próximos estejamos do limite inatingido ou ultrapassado.
Mas se não aceitamos que só um "pouquinho" tenha nos faltado ou sobrado, como vamos estabelecer o limite.
Sempre existirá esse "pouquinho".
Podemos concluir, com facilidade, que o limite é inaceitável.
Recordemos que estamos utilizando a palavra limite como sendo algo que é demarcado por uma linha divisória. Já limitação é uma restrição da ação.
Estamos de acordo?
É, sempre é bom definir as palavras, senão a gente é capaz de divergir por questões semânticas, mesmo sendo as idéias convergentes.
Não estamos questionando o fato de termos de fixar limitações para podermos viver em sociedade, já que nem todas as pessoas têm introjetada a noção de que sua liberdade termina onde começa a do outro.
Isso nada tem a ver com o que estamos analisando.
Estamos afirmando que na natureza não há limites, o que não impede que existam limitações, ou seja, uma restrição à ação.
O ser vivo tem limitações e, como já vimos, não são poucas.
A própria existência de um universo material, onde existe tempo, é resultante de uma limitação dos nossos sentidos.
Mas qual a importância prática ou existencial dessa questão de existirem, ou não, limites no universo?
Inexistindo limites, isso se aplica também para a vida, já que a morte é nosso tempo limite de vida.
Por que razão teríamos um limite de vida, quando não existem limites no universo?
Afinal de contas, isso é, ou não é, natural?
Depende de que vida você está falando. Se você entende por vida a vitalidade do corpo humano, certamente que este tem limitações.
O corpo humano se desgasta e isso é inerente à matéria. É, pois, perfeitamente natural que exista uma limitação de tempo para o corpo humano, por ser ele matéria.
O que é inaceitável é que algo que não tem matéria tenha limite.
Já vimos antes que somos uma "consciência" que utiliza um instrumento, no caso referido, um corpo humano. Esse instrumento, por ser uma coisa material, tem limitações. Mas a "consciência", esta não tem.
Fica difícil de entender?
Você, por acaso, convive com qualquer limitação para sonhar, para amar, para pensar?
Certamente que não. Pois a "consciência", que na realidade é nossa essência de vida, também não tem limites.
O que existe é uma limitação de vida material, que nada tem a ver com a "vida" representada pela "consciência".
Fica difícil para nós aceitar que a vida possa estar dissociada da matéria, ou que a matéria seja uma "criação" dos nossos sentidos e não exista realmente.
Essa dificuldade fica superada quando se verifica que nós temos a capacidade de "retirar" nossa "consciência" da matéria. Ou seja, fazer o processo inverso do que ocorreu no útero, quando nos incorporamos ao embrião.
Você tem dúvidas quanto a isso?
Certamente você conhece muitos casos de pessoas que, por não quererem viver, simplesmente morreram.
Claro que o inverso também é verdade. Muitas pessoas com diagnóstico de doença incurável e prognóstico de morte imediata conseguiram sobreviver.
Patrick Drouot, no seu livro “Nós somos todos imortais”, refere relatos de mortes coletivas; as pessoas se deitaram, dentro de um ritual, e simplesmente morreram.
Não é somente com as pessoas que isso ocorre. Conheci relatos, e você possivelmente também saiba de casos, de plantas que feneceram por terem sido abandonadas por seus donos, o mesmo acontecendo com animais de estimação.
Vamos, novamente, raciocinar juntos.
Se existe algo que tem vontade própria ao ponto de "desligar" o processo vital, por que razão duvidamos da possibilidade de este algo sobreviver ao corpo desligado.
Seria quase que um "suicídio" da "consciência". Algo muito mais difícil de se aceitar do que a continuidade da “consciência”, mesmo após a morte do corpo físico.
Aceitar a existência da morte como algo em que acaba tudo é aceitar que exista um limite para a "consciência". Procurei mostrar que limite não existe no universo real que reconhecemos através dos nossos sentidos. Obviamente, com muito mais razão, não se pode imaginar a existência de limites num universo supraluminoso, que é o que realmente existe, ainda que não seja “percebido” por nós.
Nós nos sentimos tão integrados ao corpo que utilizamos como instrumento para termos essa experiência de vida, que acabamos por pensar que é ele que nos dá a vida.
O corpo está para nossa "consciência" assim como um computador está para seus programas. Mesmo que você não esteja familiarizado com computadores, deve saber que se podem descarregar todos os programas de um e transferir para outro.
Hoje já se domina a tecnologia para se produzir um clone do nosso corpo. Mas ainda não sabemos como se poderia transferir nossa "consciência" para esse clone.
Isso certamente será algo perfeitamente dominado em muito menos tempo do que se imagina.
Pensando bem, é meio absurdo que estejamos fazendo transplantes, quando seria mais lógico se transferir a "consciência" para um corpo que não apresentasse problemas e que seria igualzinho ao nosso.
No dia em que tenhamos a maturidade para entender que nossa vida através de um corpo é algo virtual, possivelmente não estejamos nem interessados em fazer esse tipo de transferência.
Você pode me perguntar como fica a "consciência" do clone quando eu quero implantar a minha "consciência" nele?
Como já afirmei antes, não dominamos ainda essa tecnologia, mas podemos imaginar alguma semelhança com o que se passa com os computadores.
Imaginemos que a mãe utilize seu "programa" para dar acolhida à “consciência" do feto. Instalada a "consciência" do feto, ele passará a se personalizar por registrar o que venha a ser alimentado por seus periféricos, mesmo no útero.
Vale recordar que nas regressões à vida uterina as pessoas referem que estavam conscientes da sua situação, assim como relatam o trauma que foi a separação da mãe.
Pois bem, pode-se imaginar que um clone, caso seja criado fora do útero, não tenha tido a programação básica para acolher uma "consciência". Neste caso teríamos um computador sem qualquer tipo de programa, ou seja sem "sistema" instalado.
Quando se fizesse a transferência da "consciência", se estaria utilizando um clone sem "consciência", e o problema de superposição não existiria.
O fato é que quanto mais avançamos na tecnologia da informática, mais fácil fica para entendermos o que significa nosso corpo e sua relação com a "consciência". A partir desse entendimento podemos imaginar formas de intervenção que antes seriam impensáveis.
Certamente, como sempre acontece, razões éticas serão invocadas para tolher esse avanço científico. Mas, também como sempre acontece, mesmo se queimando alguns, a ciência avança, pois é inerente a nós a busca do entendimento do universo.
O progresso científico está avançando aceleradamente em duas direções. Por um lado vamos tendo a compreensão de como funciona nosso corpo e as relações da nossa "consciência" com ele, e por outro lado, vamos nos espiritualizando a tal ponto que essa questão deixa de ser tão importante.
Na realidade, a morte e suas conseqüências é algo tipicamente relacionado com a civilização ocidental. Para os orientais isso não é significativo. Mas agora, com o encontro da ciência com o místico, podemos usufruir a vantagem de aplicar nossa racionalidade às questões espirituais.
Acreditar que nosso corpo é tão-somente um substrato material inserido num universo gerado por ele próprio nos coloca numa situação de tranqüilidade perante a morte, por entendermos que não existe limite para a vida, pois caso houvesse, seria uma aberração no universo.
Vale sempre recordar que o todo está dentro da parte, assim como ela pertence ao todo. Como por definição o todo não pode desaparecer, pois não seria mais o todo, e como ele está dentro da parte, esta também não pode deixar de existir.
A existência pós-morte entra no terreno da preservação ou não da individualidade. O bom senso nos indica que as experiências por nós vividas, e incorporadas à nossa "consciência", nos dão a singularidade que é inerente à individualidade.
Seria um absurdo se todos os nossos registros estivessem "perdidos" pelo fato de ter estragado o computador, que é o nosso corpo. É muito mais lógico imaginar que sejamos um terminal ligado a um computador central, que é nossa "consciência".
Desativado o terminal, nossos registros permanecem na central, que é nossa "consciência" individualizada. Esta central, por sua vez, é o terminal de outra central, e assim até o infinito.
Vale recordar que somente no caso do universo material o computador tem matéria, sendo esta uma decorrência das limitações dos nossos periféricos. O computador central, ao qual nosso corpo está interligado como periférico, não tem matéria, pois esta não existe, sendo uma forma particular de energia.
Você acha que estou exagerando nessa comparação com o computador?
Possivelmente sim. Ocorre que nossa percepção vai sendo facilitada na medida em que avançamos na reprodução do universo e passamos a dominar tecnologias que se assemelham à organização natural.
Caso o computador não tivesse sido inventado, certamente teríamos maiores dificuldades para entender racionalmente a questão da "consciência" alocada num corpo humano.
Eu sou um simples usuário de computador. Imagino que um especialista na área possa tirar ilações muito mais pertinentes do que as feitas por mim.
Sendo o seu caso, fica aqui a provocação. Estabeleça outras semelhanças entre um computador e o corpo humano.
Pela lógica, você há de concluir que Deus deve ter tido um mínimo de precaução para não "perder" nossa experiência de vida, sob pena de, se assim fosse, ter sido inútil nossa existência.
Caso você olhe com atenção para seu lado, encontrará inúmeros indicadores de que esta perda não existe. A vocação das pessoas para uma determinada atividade; a capacidade que destaca algumas crianças, diferenciando-as das outras; as diferenças entre irmãos; tudo isso nos indica que não começamos esta vida zerados.
Trouxemos para ela uma memória acumulada por experiências anteriores, tenham ou não sido estas na Terra.
Os gênios, algo que não podemos negar que exista, comprovam por si só essa conclusão.
Claro que você pode alegar que se trata de uma transmissão genética, favorecida por uma combinação de genes.
Você pensa assim?
Tem todo o direito de pensar.
Mas será que você não está exagerando no seu ceticismo?
Caso eu não esteja conseguindo convencê-lo, sugiro o livro “L’homme superlumineux” de Pr Régis Dutheil e Brigite Dutheil, ele é muito convincente.
Sei muito bem que estamos avançando rápida e eficazmente no domínio da genética. Isso significa que estamos entrando na caixa preta, que é a estrutura material de registro. Mas não podemos ficar tão deslumbrados com isso a ponto de imaginarmos que foi o computador quem desenvolveu o sistema que está implantado nele.
Quando você atribui à genética a solução para todas as diferenças individuais, está dizendo que um mecanismo de registro, extraordinário certamente, foi o responsável pelo sistema nele implantado.
Isso não é racional, e combinamos desde o início que seríamos racionais.
É muito mais racional imaginar que exista uma unidade central onde estão registrados os dados que nos individualizam, do que pretender que uma combinação genética tenha gerado esses registros.
A genialidade é, nada mais nada menos, do que o acesso não convencional que algumas pessoas fazem a seus registros existentes na "consciência" maior, da qual a nossa é parte incorporada.
Na verdade, estou usando o recurso para a existência de uma "consciência" maior, para facilitar o entendimento do processo Já que não podemos esquecer que a parte está no todo, assim como este está na parte.
Essa configuração sob forma de holograma é a concepção mais viável para nosso atual estágio de entendimento do universo. Por ela, não haveria necessidade de termos uma "consciência" central atuando com periféricos, pois o todo estaria dentro de nós, assim como nós fazemos parte do todo.
Enquanto lia esta parte, certamente você pensou um pouco nesta questão das diferenças individuais e da genialidade.
Estou certo?
Creio que a reflexão sobre isso nos ajuda muito para termos confiança na existência de algo mais além desta vida corporal.
Claro que ainda não dominamos totalmente os mecanismos de como se estabelece a relação entre a "consciência" e o corpo, mas já avançamos muito neste sentido
O que estou fazendo neste texto é ordenar certos conhecimentos científicos, para facilitar a percepção da nossa realidade objetiva, inserida dentro de um universo supraluminoso, ou seja, um universo em que não seja a velocidade da luz um limitante.
Certamente nossa vida na Terra seria muito mais agradável, como é realmente para as pessoas espiritualizadas, caso pudéssemos nos libertar do temor à morte, do fatalismo do desaparecimento com ela e da perda da nossa individualidade.
Até a organização da nossa sociedade poderia ser beneficiada com esta percepção mais espiritualizada.
Você não concorda com isso?
Creio que sim.
Acho mesmo que vale a pena a gente abandonar certos ceticismos, abrindo nossa mente para tudo o que a ciência está nos sinalizando como verdade e, partindo daí, construirmos nossa concepção de vida.
Certamente podemos estar errando, pois afinal de contas somos muito limitados para entender de todas as coisas, mas se o erro nos conduz a uma vida melhor, é melhor assumi-lo do que persistir num outro erro que nos intranqüiliza e angustia.
Em momento algum quis passar para você a mensagem de que aquilo que afirmo possa ser uma verdade absoluta. O mais que estou tentando fazer, e com enorme dificuldade, é abrir nas suas convicções brechas que permitam que você mesmo busque suas verdades.
A continuidade da existência da nossa "consciência" após a morte corporal é uma das verdades que tenho a ambição de despertar em você.