Capítulo VII

A NOVA CONSCIÊNCIA
 
Qualquer pessoa de bom senso considera-se capacitada a distinguir o bem do mal.

Qual a linha de separação entre um e outro?

A partir de que ponto algo é bem e passa a ser mal?

Aí as coisas já se tomam mais difíceis, pois caímos na impossibilidade de estabelecermos limites.

Será, então, que realmente podemos distinguir o bem do mal?

Quando uma pessoa mata outra sem razão aparente, ou por motivo inaceitável no julgamento social, parece evidente que ela agiu mal. Mas se essa mesma pessoa mata milhares de "inimigos" ela será consagrada e condecorada por relevantes serviços prestados à pátria.

Se um homem empobrecido rouba para sobreviver, se diz que agiu mal. Quando, entretanto, o condutor da política econômica de um país consegue resultados excelentes, gerando miséria em outros países, se diz que agiu bem.

De um modo geral, os agrupamentos humanos estabelecem regras para definir o bem e o mal, regras essas que decorrem da maneira de ser, pensar e agir desse grupo, ou seja, de sua cultura, vista esta sob o ponto de vista antropológico.

Assim sendo, quando um esquimó mata seu pai envelhecido, com a justificativa de que ele não deve ficar demasiadamente enfraquecido pois isso o prejudicaria na vida eterna, ele agiu bem, segundo a maneira de pensar desse povo, que, por razões de sobrevivência, não pode manter pessoas improdutivas.

Quando a família autoriza que sejam desligados os aparelhos que mantém vivo, em sofrimento, um ser amado, sem perspectivas de recuperação, isso geralmente é aceito como sendo um ato caridoso e justificável.

Parece evidente que temos de aceitar que o bem e o mal são conceitos relativos e não absolutos. E são relativos, porque dependem do ponto de vista, ou seja, da visão a partir de um ponto.

Reconhecer isso não significa defender que as sociedades não devam estabelecer suas regras de comportamento social. O que é preciso é se ter em mente que essas são regras fixadas por pessoas, em decorrência de condicionamentos sociais que agem sobre elas e que são temporárias, pois o que é condenado hoje pode ser aceito amanhã, e assim também o contrário. Essas mesmas regras não são absolutas, pois dificilmente na aplicação delas se consegue a unanimidade de opinião dos julgadores.

Ter consciência da relatividade do bem e do mal é muito útil para que evitemos de assumir o papel de juizes, ávidos por aplicar punições. Mesmo porque a punição pode ser o caminho fácil para que alguém não seja punido. É muito comum que pessoas que tenham agido de forma a prejudicar outras, quando socialmente punidas, se sintam libertadas do peso da culpa, por já terem cumprido suas penas. Não é por outro motivo que se está evoluindo no sentido de se punir alguém obrigando-o a fazer algo que corrija os prejuízos sociais causados, e não somente aplicar uma pena temporal e improdutiva que não resgata nada, mas, muito pelo contrário ainda onera mais a sociedade afrontada.

Você pode estar pensando que a relatividade do bem e do mal não exclui a existência deles e que esta polêmica que estou alimentando tem pouca ou nenhuma utilidade.
Até lhe daria razão se não houvesse embutido no conceito de bem e mal a valorização do bem e a condenação do mal.

Mas não é evidente que o bem deve ser estimulado e o mal condenado?

Até aí tudo bem. O problema reside em se atribuir a alguém a culpa por ter agido mal, já que não precisamos nos preocupar com os que agem bem.

Vamos tentar ir à origem do bem o do mal praticados por uma pessoa.
Imaginemos um feto em processo de gestação.

Será que alguém poderia atribuir a esse ser em formação alguma culpa?

Por definição consideramos os recém-nascidos inocentes.

Se todos nós nascemos inocentes, por que alguns se tomam criminosos?

Poderíamos pensar que se trata de má índole, mas se assim for, o inocente já teria nascido marcado para ser criminoso e, na verdade, não teria responsabilidade sobre isso, pois não teve oportunidade de escolha.

Caso não se aceite esse determinismo genético, teríamos de atribuir à educação que o inocente recebeu ou ao meio em que vive a responsabilidade pelo fato de ter-se tomado um criminoso. Novamente é injusto responsabilizar alguém pela educação recebida ou pelo meio onde está inserido.

A possibilidade de coexistirem os dois fatores não dá veracidade a cada um, e muito menos ao conjunto.

Existe uma terceira hipótese, a de o inocente ter vindo para este mundo marcado para ser o que na realidade se tomou, ou seja, um criminoso, e que este determinismo foi estabelecido por ele próprio enquanto "consciência" que adotou um corpo humano.

Finalmente, podemos aceitar que a pessoa, dentro do seu livre-arbítrio, tenha decidido se tomar um criminoso.

Mesmo reconhecendo que as hipóteses não sejam mutuamente excludentes, podendo ocorrer simultaneamente, vamos analisar a viabilidade de cada uma delas, visando a estabelecer a possível culpa da pessoa que age mal.

No caso do determinismo genético, parece evidente que a pessoa não tem culpa, pois ao se incorporar num corpo em formação não tem responsabilidade pelas características do mesmo.

Quanto à influência da educação e do meio, não se pode atribuir culpa também.

A terceira hipótese, mediante a qual a "consciência" livremente optou por se incorporar num corpo predisposto a agir mal, fica inviabilizada pelo fato de ser esta "consciência" parte de um holograma, cujo todo é no mínimo neutro, pois é Deus. Pensando em termos humanos, não podemos aceitar que Deus, por definição justo, onipotente, onisciente, etc. se apresente como algo intrinsecamente mau, através da "consciência" individualizada encarnada numa pessoa.

Na última hipótese, ou seja, do autodeterminismo, a maldade seria uma escolha pessoal, mediante a qual alguém, ainda que geneticamente bem formado, e tendo tido uma educação irrepreensível, se toma, por sua própria vontade, um criminoso.

Corroborando esta hipótese, pode-se referir diversos casos de criminosos cujos irmãos são pessoas de bem. Ou seja, tomar-se um criminoso ficaria dentro do livre-arbítrio de cada um.

Caímos, assim, no ponto crucial da questão.

Será que o mal pode ser uma escolha livremente assumida por uma pessoa?

Veja bem que somente nesta hipótese é que poderiamos considerar alguém culpado por agir mal. Caso as outras hipóteses tenham influído decisivamente, ou seja existam componentes genéticos, educacionais e sociais como causas eterminantes para que alguém aja mal não existirá culpa deste alguém.

Nem tanto assim, diriam alguns, pois nem todas as pessoas que sofrem influências negativas agem mal.

Cairíamos aí na questão da índole da pessoa.

O que seria a índole má de uma pessoa?

Se for algo genético, ela não será culpada. Se, entretanto, for algo determinado por sua livre e espontânea vontade, aí sim ela seria culpada.

Será que isso pode existir?

Estou muito interessado em saber sua opinião sobre isso, e você logo verá por quê.

Vamos aceitar, então, que algumas pessoas, por sua livre e espontânea vontade desejem e consigam praticar o mal.

Aceitar que alguém possa ter essa vontade é reconhecer que existe algo além do sistema físico-químico-biológico que caracteriza o ser vivo.

O que é essa vontade?

Qual a sua origem?

Se for genética, o criminoso não é criminoso. Se for gerada pelo meio, ele é vítima e não criminoso.

De onde vem essa tal de vontade que o toma um criminoso?

Aceitar essa vontade é reconhecer que existe algo mais, além do que nossos sentidos e nossa razão podem admitir.

Se existe algo mais, este "algo mais" deve estar em todas as pessoas. Mas por que alguém tem um "algo mais" bom, e outro mau?

Não parece justo que assim seja.

Algumas religiões dizem que estamos nesta vida pagando por crimes que cometemos em vidas passadas.

Isso não justifica nada, pois simplesmente remetemos a questão do por que alguém se tomou um criminoso numa vida anterior, e não avançamos no entendimento da situação.

Se não se pode justificar que alguém seja mau por razões anteriores, retomamos à questão de se saber por que motivo alguém se toma um criminoso, já que ele nasce inocente.

Voltemos à hipótese de que nós pertencemos a um todo maior, e que este todo está dentro de nós, como ocorre com um holograma.

Neste caso, e chamemos de Deus este todo maior, nós seremos Deus, e ao mesmo tempo Deus é composto por nós.

Como seria um absurdo imaginar-se que Deus pudesse ser o mal, é preferível aceitar a hipótese de que Deus não é bom nem mau, ele é simplesmente Deus, sem qualificação.

Se Deus não é bom nem mau, mas simplesmente Deus, e se cada um de nós tem esse Deus dentro de si, e é parte dele, ninguém pode ser culpado, pois ninguém é criminoso por si só, mas sim como resultado de algo que foge à sua vontade.

Reconhecer isso nada tem a ver com a culpabilidade social e a punição de criminosos. A sociedade é um ser vivo, e todo o ser vivo tende à sua preservação, e luta por ela. Punir um criminoso é uma defesa da sociedade.

Mas precisamos assumir que perante Deus estamos condenando um inocente, por mais criminoso que ele tenha sido.

Sei que é bem mais simples e mais cômodo atribuir à alguém o livre-arbítrio de ter-se tomado um criminoso

Mas isso não existe.

O fato é que todos nós não "somos" bons nem maus, podemos, isto sim, "estar" bons ou maus. Mesmo porque já de há muito se sabe quem ninguém "é", todo mundo "está".

Por outro lado, você pode argumentar que esse determinismo exime de culpa a todos nós, gerando uma sociedade de irresponsáveis.

É válida sua observação, mas a responsabilidade não tem sido argumento suficiente para tomar nossa sociedade melhor.

Como se poderia evitar o mal?

Vou tentar responder.

Nossa estrutura social, baseada na culpa e na responsabilidade, não tem dado certo.

Jamais, em tempo algum, convivemos com tanta violência. Praticamente todos nós estamos prisioneiros de uma sociedade violenta e irresponsável.

Não adianta negar, as drogas - colocando o indivíduo num estado alterado de consciência - anulam o temor que alguém possa ter de ser punido por um ato reprovável. Esperamos que pessoas fora de si se comportem como se estivessem lúcidas e sejam coerentes, evitando assumirem riscos de serem punidas pela sociedade.

Algo parecido se passa quando convivemos com uma pessoa muito neurótica e tentamos agir racionalmente.

Não funciona. E por não funcionar, nós acabamos entrando na lógica do neurótico e nos comportando como tal.

Isso que acontece nas relações pessoais, é o mesmo que ocorre nas relações da sociedade com seus membros. Sabe-se muito bem que violência gera violência, e entramos nesta quando procuramos maiores punições para atos reprováveis.

E se fôssemos à origem do mal?

E se tentássemos entender o porquê das violências sociais?

Será que não vale a pena fazermos uma tentativa neste sentido?

O que é que você acha?

Não seria muito melhor podermos viver numa sociedade amistosa, composta de pessoas conscientes e que respeitassem o direito de ser de cada um de nós?

Vamos resgatar a afirmação de que nada "é", tudo "está", assim como a outra de que "o produto é produtor daquilo que o produz".

Aceitando-se esses dois princípios, teremos maiores facilidades para tratarmos desta questão do bem e do mal.

Preliminarmente vamos aceitar que ninguém "é" mau ou bom; a gente "está" mau ou está bom.

O estar, como já vimos, é uma decorrência do meio e não uma característica do indivíduo. Nós somos "constituídos" pelas relações que estabelecemos com o meio.

Sendo assim, é o meio que nos "constitui" maus ou bons. Tudo bem, mas por que somente alguns de nós têm comportamento anti-social, se é o meio que gera o que estamos sendo?

Certamente cada um de nós reage perante o meio de acordo com sua individualidade.

Alguns reagem de um jeito, outros de outra maneira.

Os comportamentos anti-sociais que passam a exigir uma ação da sociedade para preservar as condições de vida para todos constituem destaques dentro de uma distribuição normal. Assim, como podemos nos destacar por sermos bons, podemos fazê-lo por sermos maus.

O importante é o nível de bondade ou maldade existente na sociedade e distribuído através dessa curva normal. Caso a sociedade fosse boa, os desvios não gerariam ações tão traumáticas que exigissem uma intervenção radical para corrigi-los.

Na verdade, entretanto, nós reprovamos os criminosos, mas a sociedade, como um todo, é um péssimo modelo de disfunção social.

Você acha que estou exagerando?

Edgar Morin é uma boa indicação para você aprofundar este tema, mas vamos de qualquer forma destacar alguns aspectos, e você, certamente, acrescentará muitos outros a partir de sua sensibilidade social.

Nas nossas relações com outros seres vivos, costumamos criar seres para serem mortos por nós, para satisfazer nosso desejo de comer carne animal. Em outros casos, matamos animais por matar, ou por esporte. Não esqueçamos que perante os animais quase todos nós somos antropófagos e assassinos. Algo bem pior do que um assaltante que nos rouba. É bem provável que este assaltante, inclusive, tenha um cãozinho que ele ama e respeita.

Quando andamos pelas ruas encontramos muitas vezes crianças subnutridas, sujas e abandonadas ou exploradas por adultos que as utilizam para obterem recursos.

Nossa reação é virar as costas, pois achamos que isso não nos diz respeito. Afinal de contas, pagamos impostos - quando não sonegamos - e os Governos é que devem assumir a responsabilidade por esses desajustes sociais.

Com a maior tranquilidade mantemos casas de veraneio fechadas a maior parte do tempo, e reclamamos quando alguém arromba uma dessas residências para buscar um agasalho ou um pouco de comida.

Preferimos colocar no lixo alimentos que sobraram, pois não queremos conviver com famintos buscando migalhas.

Mantemos pessoas mal ou bem pagas, que dedicam suas vidas se preparando para uma guerra que, felizmente, não ocorrerá. Ao mesmo tempo não temos recursos para pagar professores e educar aqueles que um dia iremos condenar por estarem violentando nossa paz social.

Substituímos a escravidão pelo trabalho assalariado, uma espécie de escravidão temporária, pois não era economicamente viável manter a posse dos escravos, assumindo a sobrevivência dos mesmos.

Infernizamos a vida das pessoas que são empregadas de empresas convencionais. Elas são tratadas como crianças e não como adultos responsáveis. A ironia é que, mesmo assim, milhares de outras querem receber este tratamento, pois estão desempregadas.

Mantemos nas prisões outros milhares de pessoas que cometeram crimes relacionados com apropriação indébita, e tratamos com a maior tolerância aqueles que roubaram muito, mas usavam colarinho branco.

Asseguramos prisão especial para quem tenha curso superior, e mandamos para os presídios comuns as pessoas que não tiveram oportunidade para estudar.

Mantemos uma casta de privilegiados que se distraem gerando leis e mais leis, quando o que deveriam fazer é resolver os problemas sociais. Preferem transformar suas tribunas em balcões de negócios pessoais, traindo a confiança daqueles que neles votaram.

Negamos aos jovens as oportunidades a que têm direito por entendermos que precisam amadurecer para serem mais confiáveis. No outro extremo, retiramos do mercado de trabalho os mais experientes por não termos criatividade para mantê-los ocupados e serem socialmente úteis.

Valorizamos o golpismo e o oportunismo, aceitando ricos portadores de fortunas mal havidas. Para nós isso é um fato consumado e passamos a respeitar o infrator como sendo alguém que merece nossa admiração por ter-se tomado rico. Não interessa mais a origem.

Na verdade, somos muito injustos e pagamos por essa injustiça.

Por muito tempo pertenci ao grupo empresarial mais destacado, esempenhando papéis de liderança no meu setor.

Mais adiante rompi com o meio ao qual pertencia e escrevi livros, inclusive infantis, defendendo o socialisno democrático.

Entendi, com o passar dos anos, que o caminho não era o socialismo nem o capitalismo, nem tampouco o neoliberalismo.

Hoje estou escrevendo este texto acreditando que poderemos ter uma  sociedade humana mais justa no momento em que nos espiritualizarmos e passarmos a agir como seres vivos e não mais como seres humanos superiores.

Num mundo baseado em injustiças é muito fácil que alguém assuma comportamento anti-social. Na verdade, o comportamento desse indivíduo não é de sua responsabilidade nata, nem atávica, mas sim uma conseqüência de uma estrutura social injusta.

Estivesse ele num mundo justo, certamente seu desvio de conduta seria muito menor e suportável pela sociedade.

Nós mesmos é que criamos a sociedade, ou seja, o meio a partir do qual surgem as aberrações sociais.

Será que alguém poderia admitir que um austríaco conduzisse o povo alemão, ao qual não pertencia, a uma aventura suicida e absurda, se este mesmo povo não tivesse em si essa aventura inconscientemente assumida.

Quem sabe na busca de uma revanche para vingar uma outra similar ocorrida anos antes? Certamente ninguém que propusesse o que foi proposto teria tido adeptos se a própria sociedade não estivesse predisposta a ser liderada para seguir esse caminho.

Ninguém é tão forte que possa conduzir outras pessoas para onde não desejam ir. O líder é aquele que identifica a tendência e se coloca à frente dos demais. Ele não gera a tendência.

A onda de violência que nos aflige e inferniza nosso convívio social é gerada por nós mesmos. Ninguém tem tanta força para ser tão discrepante de uma ordem social vigente. As distorções são desvios de uma estrutura injusta que predispõe à existência desses desvios.

O caminho que vejo para nós todos é a conscientização dos erros que cometemos contra os demais seres vivos, contra o planeta que habitamos e contra nós mesmos.

Precisamos entender que nossa passagem por este planeta é um episódio insignificante, se considerarmos a magnitude da nossa "consciência" individualizada.

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